Rock in Rio – quando lucrar é mais importante que marcar época

23 03 2011

Pelo que eu já vi e já li, o Rock in Rio foi um festival criado para marcar um período na história do rock brasileiro. Como? Trazendo as principais bandas e artistas nacionais de sucesso, naquela época, para se consagrarem e convidando as principais bandas internacionais para engrossar e dar gás ao evento. Sem contar com o apoio da Globo.

O objetivo foi alcançado. O Rock in Rio fez história, muita história. Tornou-se um dos mais grandiosos e memoráveis festivais de música do mundo. A segunda edição não demoraria a vir, em 1991, no Maracanã. A fórmula foi a mesma, o estardalhaço só um pouco menor. Mas sua essência não foi modificada.

Dez anos depois, veio o terceiro Rock in Rio, e a fórmula seria a mesma. Houve um boicote da maioria das principais bandas da época (Raimundos, Skank, Os Paralamas do Sucesso, Charlie Brown Jr. e Cidade Negra foram algumas). Episódio que esvaziou o festival e comprometeu um dos quesitos básicos: consagrar bandas nacionais de sucesso para marcar uma época (não que elas precisassem do Rock in Rio pra isso).

Até porquê, a partir do RiR III, este já não era o principal objetivo. Com a marca consolidada, o intuito foi transformar o evento em lucro. E quando a preocupação passa a ser essa, o caldo desanda. Mesmo assim, a terceira edição foi histórica, com bons shows do Iron Maiden e do Foo Fighters, por exemplo. Com as bandas brazucas, Cássia Eller, Ira!, Ultraje a Rigor e Pato Fu fizeram shows memoráveis. Carlinhos Brown, tomando latadas e vaias protocolares (afinal, alguém tem que pagar o pato no Rock in Rio).

E a próxima edição? Em busca do lucro, Roberto Medina, idealizador do evento, levou o mesmo para Lisboa. Sim, bora levar um evento brasileiro pro exterior, para aproveitar a estrutura e o dinheiro europeu. Dane-se os brasileiros. Deixem eles confusos com essa história da marca que o leva o nome do Rio se firmar fora de lá. E também deixem-os esperando quando será mais vantajoso trazer o festival de volta pra casa.

E foram três edições portuguesas e duas espanholas. E a promessa do retorno. O tão aguardado retorno, que será esse ano. Com ampla divulgação desde o final do ano passado, alguns ingressos já foram vendidos antecipadamente, até se esgotarem. Pessoas, como eu, compraram essas entradas, ansiosas pelas bandas e artistas que seriam confirmados.

O tempo foi passando, as atrações foram sendo confirmadas, o line-up fechando e nada tão estrondoso, nada tão novo, nada tão empolgante foi anunciado. Talvez seja para os fãs, para mim não. E para muitos, muito menos.

Eles poderiam ir por dois caminhos: da velha fórmula (trazer o que há de melhor lá fora e aqui) ou manter um line-up 100% mainstream, com aqueles que tocam nas rádios e que levariam um grande público e consagrariam alguns destes nomes. Nem um, nem outro. O que vemos é uma mistura de bandas consolidadas, mas que já não tem tanto apelo como antes, com atrações alternativas, mas sem nenhum nome de peso. Sem contar os queridinhos da grande mídia (vide Ivete e Cláudia Leite).

A culpa é do atual cenário musical, no Brasil e no mundo? Claro que não. Você, fã de música pode enumerar muitas bandas e muitos artistas que poderiam vir, tranquilamente. Vai ver, a culpa é da busca em ganhar em cima da marca (parcerias com prefeitura e governo estadual do RJ, grandes empresas, a Globo) que faz os organizadores esqueçam que tem um público imenso afim de fazer o que o Rock in Rio tinha como meta, quando surgiu: fazer história.

Não que ganhar dinheiro não seja importante. Afinal, quem vai cobrir os custos? Mas falamos de músicas, meus caros. O negócio é mais embaixo.

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