E ninguém falou do Muse…

19 04 2011

Sei que o grande motivo, claro, de 90% do público presente naquele domingo, dia 10, no estádio do Morumbi, eram aqueles irlandeses que desbancaram os Rolling Stones e que tiverem a maior arrecadação com uma turnê (faço parte disso, afinal meu suado dinheirinho foi pro bolso deles).

Também sei que o Muse é muito mais famoso na Europa e que não tem tanta comoção quanto tem um The Killers tem aqui no Brasil.

Então, eu não consigo entender porque tinha meia dúzia curtindo de verdade o show dos caras. É, foi pequeno, com oito músicas, mas com um setlist bem selecionado.

A intenção, claro, foi o Muse mostrar para o público brasileiro o que tem de melhor. Mas porque será que ninguém se empolgou?

Sério. Me senti até bobo as vezes, quando eu e mais uma dúzia de pessoas pulavam e o resto com cara de paisagem. Ainda perguntei para uma amiga se ela tava curtindo. Ela respondeu que preferiu o Franz Ferdinand, abrindo para o próprio U2, em 2006.

Enfim, chororô a parte, será que não valeria a pena a grande maioria se esforçar e retribuir o bom show do Muse? Eles mereciam.





O ‘fascismo do bem’ – por Ricardo Noblat

17 04 2011

O assunto ficou até antigo, ultrapassado, devido a velocidade da transmissão das informações nos dias de hoje. Mas vale a pena ler o texto a seguir, retirado do Blog do Noblat, e refletir.

Imaginem a seguinte cena: em campanha eleitoral, o deputado Jair Bolsonaro está no estúdio de uma emissora de televisão na cidade de Pelotas. Enquanto espera a vez de entrar no ar, ajeita a gravata de um amigo. Eles não sabem que estão sendo filmados. Bolsonaro diz: “Pelotas é um pólo exportador, não é? Pólo exportador de veados…” E ri.

A cena existiu, mas com outros personagens. O autor da piada boçal foi Lula, e o amigo da gravata torta, Fernando Marroni, ex-prefeito de Pelotas. Agora, imaginem a gritaria dos linchadores “do bem”, da patrulha dos “progressistas”, da turma dos que recortam a liberdade em nome de outro mundo possível… Mas era Lula!

Então muita gente o defendeu para negar munição à direita. Assim estamos: não importa o que se pensa, o que se diz e o que se faz, mas quem pensa, quem diz e quem faz. Décadas de ditaduras e governos autoritários atrasaram o enraizamento de uma genuína cultura de liberdade e democracia entre nós.

Nosso apego à liberdade e à democracia e nosso entendimento sobre o que significam liberdade e democracia são duramente postos à prova quando nos deparamos com a intolerância. Nossa capacidade de tolerar os intolerantes é que dá a medida do nosso comprometimento para valer com a liberdade e a democracia.

Linchar Bolsonaro é fácil. Ele é um símbolo, uma síntese do mal e do feio. É um Judas para ser malhado. Difícil é, discordando radicalmente de cada palavra dele, defender seu direito de pensar e de dizer as maiores barbaridades.

A patrulha estridente do politicamente correto é opressiva, autoritária, antidemocrática. Em nome da liberdade, da igualdade e da tolerância, recorta a liberdade, afirma a desigualdade e incita a intolerância. Bolsonaro é contra cotas raciais, o projeto de lei da homofobia, a união civil de homossexuais e a adoção de crianças por casais gays.

Ora, sou a favor de tudo isso – e para defender meu direito de ser a favor é que defendo o direito dele de ser contra. Porque se o direito de ser contra for negado a Bolsonaro hoje, o direito de ser a favor pode ser negado a mim amanhã de acordo com a ideologia dos que estiverem no poder.

Se minha reação a Bolsonaro for igual e contrária à dele me torno igual a ele – eu, um intolerante “do bem”; ele, um intolerante “do mal”. Dois intolerantes, no fim das contas. Quanto mais intolerante for Bolsonaro, mais tolerante devo ser, porque penso o contrário dele, mas também quero ser o contrário dele.

O mais curioso é que muitos dos líderes do “Cassa e cala Bolsonaro”; se insurgiram contra a censura, a falta de liberdade e de democracia durante o regime militar. Nós que sentimos na pele a mão pesada da opressão não deveríamos ser os mais convictamente libertários? Ou processar, cassar, calar em nome do “bem” pode?

Quando Lula apontou os “louros de olhos azuis” como responsáveis pela crise econômica mundial não estava manifestando um preconceito? Sempre que se associam malfeitorias a um grupo a partir de suas características físicas, de cor ou de origem, é claro que se está disseminando preconceito, racismo, xenofobia.

Bolsonaro deve ser criticado tanto quanto qualquer um que pense e diga o contrário dele. Se alguém ou algum grupo sentir-se ofendido, que o processe por injúria, calúnia, difamação. E que peça na justiça indenização por danos morais. Foi o que fizeram contra mim o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) e o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Mas daí a querer cassar o mandato de Bolsonaro vai uma grande distância.

Se a questão for de falta de decoro, sugiro revermos nossa capacidade seletiva de tolerância. Falta de decoro maior é roubar, corromper ou dilapidar o patrimônio público. No entanto, somos um dos povos mais tolerantes com ladrões e corruptos. Preferimos exercitar nossa intolerância contra quem pensa e diz coisas execráveis.

E tudo em nome da liberdade e da democracia…

Ricardo Noblat





Reverberação desnecessária

9 04 2011

Tentei evitar, a todo custo, ler ou assistir notícias relacionadas a chacina da escola de Realengo, Rio de Janeiro. Mas foi impossível. Em casa mesmo, meu pai não se cansava de se “atualizar” sobre. Aliás, muitos não se cansaram por aí.

Dentro do ônibus, nas ruas, no trabalho. O assunto foi um só. Não há como deter a reverberação popular, com suas indignações, medos e dúvidas. Mas a imprensa precisa ir na mesma onda?

O papel dela, claro, é informar, evidenciar e até mesmo discutir tudo o que cerca esse lamentável episódio. Mas o que vejo é que estão forçando a barra.

Todo mundo sabe o que aconteceu, do começo ao fim da tragédia. Se sabemos, ficam as perguntas: é necessário mostrar o rosto dos pais, familiares e amigos das vítimas chorando? Precisava ter mostrado o homicida morto no chão do corredor da escola, todo ensanguentado?

São esses pormenores, mostrados incessantemente na TV, nas capas dos jornais (com manchetes escrotas) que ainda nos fazem discutir qual o verdadeiro papel da imprensa. Noticiar um fato é esfregar na nossa cara o quão trágico é um episódio?

Será que o simples fato de levar o máximo de informações pertinentes sobre os mais diversos assuntos, sem muita polêmica e sensacionalismo barato, não é suficiente para um meio de comunicação vender bastante ou obter grandes indíces de audiência?

Como podemos pensar em construir um país sério se nossa imprensa não é séria?

Lembro vocês que, coincidentemente, o triste massacre de Realengo ocorreu no Dia do Jornalista.

Ironia do destino.