O ‘fascismo do bem’ – por Ricardo Noblat

17 04 2011

O assunto ficou até antigo, ultrapassado, devido a velocidade da transmissão das informações nos dias de hoje. Mas vale a pena ler o texto a seguir, retirado do Blog do Noblat, e refletir.

Imaginem a seguinte cena: em campanha eleitoral, o deputado Jair Bolsonaro está no estúdio de uma emissora de televisão na cidade de Pelotas. Enquanto espera a vez de entrar no ar, ajeita a gravata de um amigo. Eles não sabem que estão sendo filmados. Bolsonaro diz: “Pelotas é um pólo exportador, não é? Pólo exportador de veados…” E ri.

A cena existiu, mas com outros personagens. O autor da piada boçal foi Lula, e o amigo da gravata torta, Fernando Marroni, ex-prefeito de Pelotas. Agora, imaginem a gritaria dos linchadores “do bem”, da patrulha dos “progressistas”, da turma dos que recortam a liberdade em nome de outro mundo possível… Mas era Lula!

Então muita gente o defendeu para negar munição à direita. Assim estamos: não importa o que se pensa, o que se diz e o que se faz, mas quem pensa, quem diz e quem faz. Décadas de ditaduras e governos autoritários atrasaram o enraizamento de uma genuína cultura de liberdade e democracia entre nós.

Nosso apego à liberdade e à democracia e nosso entendimento sobre o que significam liberdade e democracia são duramente postos à prova quando nos deparamos com a intolerância. Nossa capacidade de tolerar os intolerantes é que dá a medida do nosso comprometimento para valer com a liberdade e a democracia.

Linchar Bolsonaro é fácil. Ele é um símbolo, uma síntese do mal e do feio. É um Judas para ser malhado. Difícil é, discordando radicalmente de cada palavra dele, defender seu direito de pensar e de dizer as maiores barbaridades.

A patrulha estridente do politicamente correto é opressiva, autoritária, antidemocrática. Em nome da liberdade, da igualdade e da tolerância, recorta a liberdade, afirma a desigualdade e incita a intolerância. Bolsonaro é contra cotas raciais, o projeto de lei da homofobia, a união civil de homossexuais e a adoção de crianças por casais gays.

Ora, sou a favor de tudo isso – e para defender meu direito de ser a favor é que defendo o direito dele de ser contra. Porque se o direito de ser contra for negado a Bolsonaro hoje, o direito de ser a favor pode ser negado a mim amanhã de acordo com a ideologia dos que estiverem no poder.

Se minha reação a Bolsonaro for igual e contrária à dele me torno igual a ele – eu, um intolerante “do bem”; ele, um intolerante “do mal”. Dois intolerantes, no fim das contas. Quanto mais intolerante for Bolsonaro, mais tolerante devo ser, porque penso o contrário dele, mas também quero ser o contrário dele.

O mais curioso é que muitos dos líderes do “Cassa e cala Bolsonaro”; se insurgiram contra a censura, a falta de liberdade e de democracia durante o regime militar. Nós que sentimos na pele a mão pesada da opressão não deveríamos ser os mais convictamente libertários? Ou processar, cassar, calar em nome do “bem” pode?

Quando Lula apontou os “louros de olhos azuis” como responsáveis pela crise econômica mundial não estava manifestando um preconceito? Sempre que se associam malfeitorias a um grupo a partir de suas características físicas, de cor ou de origem, é claro que se está disseminando preconceito, racismo, xenofobia.

Bolsonaro deve ser criticado tanto quanto qualquer um que pense e diga o contrário dele. Se alguém ou algum grupo sentir-se ofendido, que o processe por injúria, calúnia, difamação. E que peça na justiça indenização por danos morais. Foi o que fizeram contra mim o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) e o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Mas daí a querer cassar o mandato de Bolsonaro vai uma grande distância.

Se a questão for de falta de decoro, sugiro revermos nossa capacidade seletiva de tolerância. Falta de decoro maior é roubar, corromper ou dilapidar o patrimônio público. No entanto, somos um dos povos mais tolerantes com ladrões e corruptos. Preferimos exercitar nossa intolerância contra quem pensa e diz coisas execráveis.

E tudo em nome da liberdade e da democracia…

Ricardo Noblat





2º turno em 2010: o referendo de 2005 e suas referências

4 10 2010

Para muitos uma surpresa. Inclusive para alguns institutos de pesquisa. Para outros, nem tanto.

Dilma e Serra vão para o 2º turno.

E quais foram os motivos? Pode ser pelo enfraquecimento da campanha de Dilma ou pela votação expressiva de Marina Silva, que acabou tirando votos da petista.

Os tucanos que não tem nada ver com essa dinâmica, comemoram essa reviravolta.

É fato que eles virão babando pra cima do PT, agora com igualdade de tempo, nos horários e propagandas eleitorais. E se souberem e quiserem usar, pela internet também.

A campanha de Dilma tem tudo para seguir a mesma toada daquela vista no 1º turno: o presidente Lula todo tempo ao seu lado.

Até que ponto isso pode beneficiar ou prejudicar a candidata da situação?

Posso até estar meio equivocado com a comparação, mas vamos lá.

Lembram do referendo sobre o desarmamento, em 2005?

Antes da campanha começar, o voto pelo ‘sim ao desarmamento’ liderava as pesquisas de intenção de voto, com ampla vantagem.

E o ‘não’ tinha tudo para sofrer uma derrota histórica, pelo o que apontava os indicadores dos institutos. E também pelo apelo popular.

Mas, quando a campanha no rádio e na TV começou, o ‘não’, que não contava com nenhum artista ou celebridade em sua campanha, teve como principal justificativa que o posse de arma garantiria a segurança de cada cidadão. E todo aquele papo que acabou mudando o rumo das coisas.

E o ‘sim’ que contava com inúmeros políticos, artistas, músicos, celebridades e com uma campanha mais endinheirada e trabalhada, via a cada pesquisa sua diferença cair. Até ver o ‘não’ passar e no pleito, ter bem mais votos.

Onde eu quero chegar com esse resumo do referendo de 2005?

O ‘sim’ que era favorito e preferiu mostrar que vários políticos e celebridades estavam ao seu lado, ao invés de “encher” seu discurso vazio, tomou uma virada do ‘não’, que focou exclusivamente em martelar o eleitor/cidadão com os motivos que defendia.

O que o PT deve aprender com essa lição? Mostrar mais a cara da Dilma. Onde você viu cara, leia-se plano de governo. E parar de colocar ela lado a lado com o Lula, o tempo todo.

É importante que o presidente apoie sua candidata, mas fazer com que ela ande um pouco sozinha é fundamental, pois passa mais confiança.

O que o PSDB deve aprender com essa lição? Que a hora é de fortalecer o discurso e tentar mostrar mais segurança ao eleitor. E se puder, explorar a insegurança da adversária, que é escancarada sempre quando ela aparece demais ao lado do Lula.

Será que vocês conseguiram entender? Esse processo eleitoral, confesso, me faz viajar às vezes.

Viva o 2º turno!





Eleições: quanta sujeira!

20 09 2010

Como eu posso acreditar num candidato que suja as ruas da minha cidade?

Ele vem, mostrando boa vontade e prometendo saúde, educação, melhorias no saneamento básico e no transporte público e tudo que faça ele conquistar votos e mais votos.

Mas, nas esquinas da principal avenida da cidade, seus cabos eleitorais sujam-as com seus santinhos e poluem visualmente todos aqueles locais, com bandeirolas e cavaletes.

Sem contar nos jingles em altura máxima.

Bom, se o cara é capaz de fazer tudo isso, em troco do meu voto, ele vai mesmo cumprir todas as suas promessas de melhoria para minha cidade, meu estado, meu país?

Vale tudo pelo voto. É o que pregam os marqueteiros políticos. E infelizmente, eles estão certos.

Uma campanha vitoriosa não tem sucesso apenas pelas propostas do candidato e/ou pelo seu passado político.

É preciso “martelar” o eleitor com essa encheção de saco, que no fim das contas, acaba dando certo.

E enquanto estiver dando certo, eles não vão parar.

Haja saco pra aguentar esse processo eleitoral.





Eu não quero Netinho de Paula no Senado

15 09 2010

Netinho de Paula está entre os líderes na pesquisa para disputa do Senado, no estado de São Paulo.

Ex-líder do grupo de pagode Negritude Jr, cantor e apresentador, é natural que ele atraia uma multidão de fãs.

Fãs, que em sua maioria, já são eleitores e portanto, podem por si só dar uma votação expressiva à ele.

Talvez esse seja o grande carro-chefe de sua campanha. Onde não vi nenhuma proposta, apenas a imagem de bem feitor, trabalhada pelos marqueteiros do PC do B e PT.

Bem feitor? Seus fãs me responderão que sim. Afinal, quantas ‘princesas’ não foram ajudadas pelos programas do rapaz?

Gesto nobre, mesmo que o principal intuito daquilo tudo teria sido abocanhar a audiência televisiva.

Sandra, ex-esposa de Netinho de Paula, após ser agredida por ele.

Mas vamos aos fatos. Muita gente sabe que Netinho de Paula bateu em sua mulher, a ponto de deixar hematomas no rosto dela. Inclusive seus fãs.

Talvez nem tanta gente esteja ciente que Netinho, eleito vereador de São Paulo, em 2008, não compareceu a nenhuma sessão da Câmara dos Vereadores, em 2010. E talvez alguns de seus fãs saibam disso.

Mas, pro fã de Netinho, principal parcela de seu eleitorado, o mais importante é que com ele no Senado, milhares e milhares de ‘princesas’ por aí poderão ter suas vidas transformadas.

Ou você acha que o fã enxerga com os olhos de um eleitor consciente? Infelizmente, não é assim.

O resto? Ah! O resto é irrelevante. Pelo menos na visão do fã.

Parece absurdo, não é mesmo?

Como eu não acredito em conto de fadas, eu não quero ver Netinho de Paula no Congresso Nacional.

03 de outubro não será um ‘dia de princesa’, dependendo do resultado.





Propaganda eleitoral: rindo pra não chorar

18 08 2010

Com o início da campanha eleitoral, na TV e rádio, o que vem sendo discutido, demasiadamente,  é a sua banalização.

Candidaturas como a da Mulher Pera, Marcelinho Carioca e Kiko, do KLB, soam como chacota.

E alguns jingles também. Tanto que não saem de nossas cabeças.

Mas isso não é exclusividade brasileira.

Nas últimas eleições para a presidência da Itália, em 2008, o Partido Democrático lançou como candidato Walter Vetroni, oposição a Silvio Berlusconi, que buscava sua reeleição.

Lançou também um jingle muito curioso para a campanha. Acho que lembra uma música bem conhecida.

“Walter/Eu confio em você/Digo/Walter/Um país moderno/Com Walter/Chegou o momento de dizer não aos joguinhos/Vote/Pela estabilidade/Digo, vote/Nós corremos sozinhos/Você vota/Para mudar de verdade/Digamos que sim, podemos fazer”

Fonte: UOL





Candidatam-se a troco de quê?

16 08 2010

Fui pego de surpresa com a notícia de que o mítico “cantor” e humorista Tiririca se candidatou a deputado federal.

Engraçado imaginar o cearense de Itapipoca discursando no plenário.

Será mais hilário ainda acompanhar sua campanha no rádio e na televisão.

E existe uma grande possibilidade, por falta de opção ou por pura ignorância política da maioria dos cidadãos, dele ser eleito.

Bom, é direito de todos pleitear por uma vaga na presidência, no governo estadual ou nas câmaras e assembléias.

Desde que ele siga uma série de exigências. Uma delas é estar filiado a algum partido, por um ano, entre outras coisas.

Mas quem conhece o processo eleitoral pode perceber que há algo por trás destas “celebridades” se candidatando.

Será que é pelo desejo repentino em fazer algo pela população.

Bom, pode até ser. Não me cabe este julgamento.

Mas muitas celebridades angariam muitos votos. E se eleitos, devido ao ‘coeficiente eleitoral’, eles ‘puxam’ outros candidatos de sua legenda (partido).

Assim, o risco dos caciques dos partidos serem indicados para preencherem estas vagas é enorme.

Portanto, pense bem se você está pretendendo votar em um candidato célebre.

Através dele, figuras indesejadas podem ir “defender nossos direitos”.





Político honesto ainda existe…

3 08 2010

Para quem não acreditava…